Proposta

A propsta deste Programa resulta na construção coletiva de um grupo de pesquisadores que instituiu a Rede Interativa de Pesquisa e Pós-Graduação em Conhecimento e Sociedade (RICS), motivados pela convergência de estudos interdisciplinares que realizavam sobre a relação conhecimento-sociedade, mais especificamente relacionados com os processos de difusão e compartilhamento do conhecimento na sociedade contemporânea. Este interesse teve e tem como base a constatação muito atual, mas que já vem sendo apresentada desde a década de 1950, inteligentemente, por dois cientistas de referência internacional: C.P.Snow no livro “As duas culturas” e M. Polanyi, em “Personal Knowledge” (até hoje não traduzido para o Português), constatação esta que é assim expressa, mais contemporaneamente, de modo sumário, por Delanty, nas pertinentes reflexões que apresenta em “The Challenge of Knowledge”: “Pode-se dizer que a história dos sistemas de pensamento político e social ocidentais é a expressão de um conflito profundo entre dois tipos de conhecimento: conhecimento como ciência e conhecimento como cultura” (2001, p.1). Tal conflito revela-se também na histórica dicotomia “racional – social” entre as abordagens empíricas e normativas de produção do conhecimento científico (LONGINO, “The Fate of Knowledge, 2002, p.68-96) e toma proporções cada vez mais significativas quando se considera a força da “aplicação” dos conhecimentos científicos, no impulso da cadeia acelerada de transformações tecnológicas na sociedade contemporânea mas, ao mesmo tempo, o fato de que este é um processo do qual poucos ainda participam (SEVCENKO, 2001).
 
A importância da participação de diferentes segmentos da sociedade nos processos de transformação científica e tecnológica é outra das razões para se instituir esta proposta, que busca superar fatores restritivos a tal participação, dentre os quais se destacam:
 
1. a escassez de atividade científica (Cf. informações colhidas no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq) relacionada com a busca de compreensão da complexidade dos processos de geração do conhecimento em comunidades específicas – científicas, tecnológicas, “de prática” (LAVE, 1996) – e de difusão desse conhecimento para a comunidade ampliada (FRÓES BURNHAM, 2002);
 
2. a insuficiente publicização do conhecimento e, portanto, a insuficiente socialização do que é produzido naquelas comunidades específicas, publicização esta que tem como objetivo informar a comunidade ampliada, inclusive as próprias comunidades específicas diversas daquelas que produzem esse conhecimento (ZIMAN 1968);
 
3. a carência de lócus sociais de compartilhamento do conhecimento, onde não apenas se disponibilize informação, mas se possa transformar conhecimento explícito em implícito, (POLANYI, 1976) de domínio pessoal, que poderá ser novamente transformado em conhecimento coletivo, através de processos de colaborativos ou cooperativos, nesses espaços multirreferenciais de aprendizagem (FRÓES BURNHAM, 2000).
 
Entende-se que a escassez referida no item 1 decorre do fato de tal atividade científica situar-se em um campo interdisciplinar extremamente complexo, necessitando de muitos estudos, principalmente no que diz respeito à área de “difusão do conhecimento na sociedade”, conforme argumenta Galeão (2003, p.3), ao justificar o projeto “Modelagem Computacional da Difusão do Conhecimento”, do Laboratório Nacional de Computação Científica/Ministério de Ciência e Tecnologia. Esta necessidade ainda se torna mais premente quando a economia informacional passa a ser determinante de uma sociedade onde o conhecimento é menos considerado como bem imaterial para ser mais enfatizado como valor de mercado (CASTELLS, 1999). Valor tão importante que chega a gerar as denominações “sociedade do conhecimento” e “sociedade da informação” que, de acordo com as reflexões de Fróes Burnham (2000); Mnemosyne e Fróes Burnham (2003), implicam relações assimétricas de poder e, portanto, remetem à necessidade de instituição da “sociedade da aprendizagem”, onde não é apenas o acesso à informação ou a geração e transferência de conhecimento que importam, mas também a transformação deste em elemento de construção de indivíduos sociais autônomos e instituintes (CASTORIADIS, 1982), partícipes de uma transformação pautada no “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente”, como vem propondo Boaventura Santos (1995, 2002, 2004), desde a segunda metade dos anos 90.
 
A relação que aqui se pretende tomar como foco de pesquisa é, portanto, de grande relevância acadêmica e social no atual cenário da sociedade brasileira; vem sendo, já de algum tempo, de interesse internacional e tem tomado diferentes vertentes de análise, dentre as quais se destacam:
 
1. mais anteriormente:
 
1.1. nos já citados trabalhos de Polanyi (1958) – que procura estabelecer uma ponte entre “ciência” e “humanidade”, conhecimento “universal” e pessoal – e Ziman, (1968) – que discute as “dimensões sociais da ciência”;
 
1.2. na abordagem da dinâmica das mudanças de paradigmas, expressadas nos trabalhos de Thomas Kuhn (1962);
 
2. mais contemporaneamente, as abordagens fundamentadas:
 
2.1. na “modelagem quantitativa dos fenômenos sociais, econômicos, biológicos, ecológicos e ambientais” (GALEÃO, 2003, referindo a Gomes; Varriale, 2001; Frank, 1998; Hofbauer; Sigmund, 1998; Hannon, 1997; Othmer; Adler; Lewis; Dallon, 1997 e Mahajan; Peterson, 1985);
 
2.2. nas ciências humanas e sociais, a exemplo de Solomon (1992, 1994) Latour (1987, 1999) que tratam da relação entre cientistas no interior de suas comunidades e as situam no complexo de comunidades ampliadas que constituem, inclusive, seus suportes;
 
2.3. nas relações concretas do mundo produtivo contemporâneo, bem representada por Gibbons et al. (1994) e Delanty (2002), que chamam a atenção, a partir de diferentes perspectivas, para “o novo modo de produção do conhecimento”, no contexto de sua própria “aplicação”, o que levanta desafios para as universidades e instituições de pesquisa, ampliando os espaços de produção e reduzindo as distâncias entre produção, transferência e difusão do conhecimento;
 
2.4. na perspectiva da gestão do conhecimento de Nonaka e Takeuchi (1997), que traz à tona um modelo para a compreensão do ciclo conhecimento tácito-explícito-tácito, em expansão constante.
 
Estas análises reafirmam a necessidade de uma abordagem interdisciplinar e multirreferencial para a investigação dos processos de geração e difusão do conhecimento, para a qual é imperativa a organização de grupos de “pesquisadores com formações diversificadas e adequadas ao problema […] Esta aproximação entre profissionais de áreas distintas é um dos pontos mais críticos dos […] paradigmas científicos atuais e necessita de paciência, persistência e suporte contínuo” (GALEÃO, 2003). Obviamente que para a formação desses grupos interdisciplinares é mister que haja uma significativa capacidade instalada de pesquisadores em diversas áreas correlatas ao objeto de investigação pretendido. Tomando como base o Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq constata-se que no País como um todo existem, segundo o senso de 2004, 19.470 grupos de pesquisa, 91.512 pesquisadores, dos quais 60.242 são doutores. Destes grupos, 2.760 (14,2%) estão distribuídos no Nordeste e a Bahia contribui com 728, (3,7% da taxa nacional). Neste Estado, a UFBA participa com 348 grupos, 1.715 pesquisadores, dentre os quais 1.081 são doutores, ocupando o 13º lugar entre as instituições brasileiras. As demais universidades baianas não têm seus dados divulgados explicitamente, uma vez que não contam com o limite mínimo de 200 doutores, ponto de corte estabelecido pelo CNPq. Essas informações demonstram a carência de formação de pesquisadores no Estado e, indiretamente, mas certamente, a necessidade de iniciativas que visem a essa formação no campo da difusão do conhecimento, onde não se encontra nenhum Programa de Pós-graduação cadastrado na CAPES, conforme informações divulgadas no portal dessa agência (www.capes.gov.br).
 
Se o imperativo da ampliação das condições para a difusão do conhecimento se coloca ao se tratar da questão no âmbito acadêmico, torna-se ainda mais contundente quando se passa a tratá-lo também do âmbito político, social e econômico da distribuição desigual do conhecimento na sociedade e da sua ainda mais desigual apropriação por diferentes grupos sociais. Esta desigualdade tem se revelado como um dos fatores mais importantes na pauta da discussão da exclusão social, agora também tomada como exclusão de largas parcelas da população de um determinado domínio do conhecimento, o tecnológico, de base eletrônica e em linguagem digital; tão importante que tem recebido bilhões de dólares em todo o mundo e é a principal ênfase da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, coordenada pela ONU. Apesar de todas as críticas que se possa fazer a este tratamento “supranacional” da questão da exclusão digital ela é, sem dúvida, “um tema para tod@s” (SALAINEN; LIMA, 2004). No Brasil a situação é das mais graves, comparativamente ao que vem ocorrendo no cenário internacional e, no interior do País, a Região Nordeste apresenta situação das mais críticas, sendo que a Bahia encontra-se entre as unidades da Federação com maiores índices de exclusão. “Segundo dados recém divulgados de pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, que mapeou a situação da inclusão digital no Brasil, aproximadamente 88% da população do país não têm acesso à Internet. De cada 100 habitantes, somente 8,31% são internautas (nos EUA são 65) e 12,46 possuem PCs (nos EUA são 60). Do total de internautas 42% são da classe A, que representa 5% da população total; 48,7% da classe B, 19% da total; e somente 9% são das classes C, D e E, 32%, 42% e 2% da população total, respectivamente”. (Programa Baiano de Inclusão Digital, 2004).
 
Não é sem razão, portanto, que o Estado da Bahia tem, entre seus programas prioritários os de Inclusão Digital, com o Programa acima indicado, que já implantou mais de 300 infocentros, em 276 municípios no Estado (no âmbito da Secretaria de Ciência e Tecnologia), bem como com a instalação da “Sala do Cidadão” em cada posto do SAC (no âmbito da Secretaria de Administração), para dar acesso gratuito à Internet à população de “excluídos digitais”. Para além desses projetos estão ainda as políticas de Ciência e Tecnologia do Estado, na definição de cujos eixos prioritários encontram-se os de “Fortalecimento da Base Científica”, “Pesquisa e Tecnologia para as Áreas Sociais e Ambientais” e “Tecnologias da Informação e Comunicação”, com linhas de ação explícitas, entre as quais algumas em que este projeto se insere, tais como:
 
1. “Fomento a cursos de doutorado e mestrado, visando a construir capacitação em áreas estratégicas para o Estado da Bahia, através […] do estímulo à articulação entre as universidades locais, bem como entre elas e instituições de outros estados e países”;
 
2. “Apoio à aquisição, manutenção e compartilhamento da infra-estrutura laboratorial […] gerando maior eficiência na utilização da base laboratorial”;
 
3. “Apoio à formação de recursos humanos e ao fortalecimento e modernização da infra-estrutura laboratorial para o ensino das ciências […]”;
 
4. “Apoio à difusão de tecnologias de ensino à distância como instrumento de ampliação e melhoria do acesso ao aprendizado científico”;
 
5. “Estímulo à formação de redes de cooperação interinstitucional em torno de temas ligados à área das TIC, a exemplo de software livre e do desenvolvimento de aplicativos […]. (BAHIA, SECTI, 2004).
 
Para a efetivação desta política é preciso tanto a ampliação da base de pesquisa, como a instituição de programas de pesquisa e pós-graduação para a (in)formação de pesquisadores e outros profissionais de alto nível para (1) ampliar a competência instalada para a consecução de projetos de desenvolvimento científico e tecnológico, através de processos de modelagem do conhecimento e análise cognitiva, formações estas ainda inexistentes no Estado; (2) garantir o acesso à educação científica e à infoeducação (FRÓES BURNHAM, 2005) a amplas camadas da população na perspectiva de formação de lastros cognitivos para tal desenvolvimento, a longo prazo; (3) melhorar a distribuição e garantir a apropriação, na comunidade ampliada, de conhecimentos produzidos pelas comunidades específicas anteriormente mencionadas, através de processos de difusão desses conhecimentos; (4) promover o intercâmbio entre comunidades científicas e tecnológicas e comunidades específicas tradicionais / ?de prática?, através de processos competentes de tradução e interação entre elas; (5) gerar / implementar mecanismos eficazes de criação, organização, gestão e difusão do conhecimento, visando à instalação de uma Sociedade da Aprendizagem.
 
Os argumentos aqui apresentados justificam que a RICS apresente esta Proposta de um doutorado na área de difusão do conhecimento, com área de concentração em modelagem da geração e difusão do conhecimento e duas linhas de pesquisa: I. Construção do Conhecimento: Cognição, Linguagens e Informação e II. Difusão do Conhecimento: Informação, Comunicação e Gestão. Estas duas linhas de pesquisa buscarão aprofundar a compreensão do que vem sendo feito com e do conhecimento produzido no Brasil, especialmente na área de Ciência e Tecnologia: Como é ele transferido para outros setores? Traduzido para diferentes públicos? transformado em diferentes âmbitos? Que canais de difusão distribuem este conhecimento e os produtos de ciência e tecnologia? Qual a efetiva contribuição do conhecimento produzido na academia para a competitividade do setor produtivo? Qual a contribuição de conhecimentos específicos a comunidades tradicionais / ?de prática?, para a construção de conhecimentos acadêmicos / científicos? Que intercâmbios existem / podem vir a existir entre esses diferentes tipos de comunidade?
 
Para responder a questões com tal complexidade, não se encontram grupos específicos de pesquisa. É preciso da articulação de diferentes pesquisadores, com formações distintas e que assumam o desafio de trabalhar em colaboração, inicialmente de forma multidisciplinar (JAPIASSU, 1976, p 73-74) e, gradualmente, venham a conseguir uma produção interdisciplinar (JAPIASSU, 1976, p 74-75) e multirreferencial (ARDOINO, 1998).
 
Esta Proposta é, portanto, a assunção deste desafio, por um grupo de pesquisadores que, apesar de já terem alguma experiência nas suas respectivas áreas de atuação, consideram que não se pode ignorar a premência das questões acima levantadas e resolveram trabalhar em colaboração, criando a RICS, que agora propõe este Programa de Pós-graduação, com o curso de doutorado, na esperança de se manterem em permanente interação, para instituir e consolidar as áreas interdisciplinares de análise cognitiva e modelagem do conhecimento.